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FELIZ ANO NOVO!

  • Foto do escritor: Micheli Aparecida de Paula
    Micheli Aparecida de Paula
  • 31 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

Atualizado: 16 de jan.

E que haja um novo todo dia…

uma água voando entre nuvens com um céu azul e laranja ao fundo

Antes de começar um adendo: esta clínica é um espaço de escuta. Acreditamos que o sofrimento não nasce isolado no indivíduo. Ele se tece nas relações, no trabalho, nos vínculos, nas exigências do tempo em que vivemos. Ainda assim, cada pessoa chega com sua própria história, seu cansaço, suas perguntas e é por aí que começamos. Aqui, não é preciso ter respostas, posições políticas definidas ou palavras bem organizadas. A terapia não exige força, clareza ou engajamento. Ela começa onde for possível começar.


Nosso compromisso é com um cuidado ético, sem culpabilização e sem modelos prontos de vida. Escutamos o que dói, o que silencia e o que ainda não encontrou forma. Quando fizer sentido, a partir do próprio processo, podem emergir reflexões mais amplas sobre o mundo, o trabalho, os afetos e o coletivo. Mas nunca como exigência, apenas como possibilidade. Esta clínica existe para sustentar encontros. Com o sofrimento, com o desejo, com os limites e potencialidades de cada um...


mão usando luva laranja esfrega o chão com escova de lavar.

Ontem foi um dia intenso de faxina aqui em casa. Sabe aquelas do final do ano, que tu decide limpar a geladeira e os armários? Revirar caixas esquecidas pra jogar o que não tem mais serventia pra ninguém fora e doar aquilo que não queremos mais mas ainda é útil… Lava os potes dos temperos, as paredes da cozinha, tira as teias de aranha, dá um trato no quintal… Enfim, daquelas que parece que a gente faz meio que querendo abrir espaço na Vida pra caber mais coisas, na expectativa de que essas coisas novas tenham um bom sentido, uma validade positiva, uma cara de limpeza, uma associação com a alegria, ou seja, um desejo de Ano Novo.


Tempestade de raios num céu amarelado

No final do dia estávamos exaustas e caía uma tempestade… talvez fosse o cansaço, mas pego minha namorada olhando vidrada pela janela assistindo a chuva densa que caía e, entre relâmpagos e trovões, pergunto o que ela tá pensando, ao que me responde: “no fim do mundo”... eu entendo nas entranhas o raciocínio, e imediatamente lembro de quando era criança, e do quanto a questão do desperdício de água desde lá me inquietava… lembrei especificamente de ficar indignada com minha mãe que lavava a calçada todo dia, enquanto eu assistia no jornal que existiam pessoas que morriam de sede…


mulher negra usando luva azul e amarela limpa um espelho com flanela azul

Minha mãe, uma mulher talhada pelo patriarcado para servir e cuidar, se indignava comigo a interpelando na função doméstica, quando tudo o que ela tinha que fazer era cumprir com suas tarefas pra que nossa existência fosse mais confortável. E eu, evidentemente, não entendia isso na época. Nós não nos entendíamos lá, mas hoje eu a entendo, e especificamente no instante de resgate dessa memória, eu a senti visceralmente. Como eu posso me responsabilizar pelo fim dos tempos por sustentar uma faxina num mundo onde existem coca-colas e IAs? Super ricos e capitalismo? Tempestades e degradação de Políticas Públicas?


criança no primeiro plano em pé ao lado de um parapeito olhando para um caderno sobre o parapeito no qual escreve; no segundo plano um homem sentado ao fundo

E foi aí que a dobra do pensamento se deu: sou tão responsável hoje pelas alterações climáticas ao utilizar uma IA quanto minha mãe era pela sede de alguns por lavar as calçadas todos os dias: zero! nulo, nadica de nada… Talvez a criança de outrora se indignasse com esta constatação, mas a mulher de hoje entende que a vida não é tão autônoma assim. Um tanto por isso que eu me afasto das narrativas que prometem mudança a partir de ajustes individuais de conduta, como se bastasse cada um fazer “a sua parte” para que o mundo se reorganize. A experiência me mostra que não é assim: o que sustenta a vida ou a destrói nunca é individual.


terreno com construções devastadas e uma placa com os dizeres "o fim do mundo"

O que introduz um ponto importante pra reflexão que quero desenvolver aqui: nada se faz sozinha/e/o… e o problema não são os produtos e tecnologias, mas o sistema que naturalizou um certo modo de consumo que “justifica” a exploração desenfreada e irrestrita da natureza e de corpos, sobretudo os dissidentes, trazendo consequências devastadoras para a manutenção da nossa existência enquanto ecossistema. Percebe? Não falo da nossa existência como espécie apenas, porque nisso estamos comprometendo um ecossistema todo. Que já se reinventou várias vezes e vai fazer isso de novo, mas o custo para nossa existência será de extermínio em massa com muita dor e sofrimento no processo.


fogos de artifício coloridos estourando no céu

“Credo, essa é sua mensagem de Ano Novo? Onde você quer chegar com isso?” Então, o fato é que todo dia é um dia possível para ser um Ano Novo. Dia primeiro de janeiro é uma convenção (bem mercantil, diga-se de passagem), mas essas convenções são boas só pra nos lembrar disso mesmo, de que podemos esperar coisas boas da Vida. Desde que nos impliquemos a produzir coisas boas no caminho. Escolher boicotar uma marca pode ser sua escolha coletiva de implicação na produção de um mundo melhor pra existirmos, mas se alinhar às lutas da classe trabalhadora, revisitar seu racismo e misoginia diariamente, lutar contra lgbtfobia e capacitismos, etc, também são.


gaveta aberta com presentes dentro e um ramo de flores brancas

Limpar as gavetas da própria existência não tem que atuar pra reforçar a lógica de individualização da vida, mecanismo tão eficiente deste sistema que tende a produzir indivíduos cansados que, tristes, reproduzem automaticamente o status quo como se não houvesse alternativa possível. E sozinha/e/o não há mesmo. Fazer a faxina junto foi bem mais fácil, diga-se de passagem. Lutar diariamente também é. Foram tantos os caminhos que nos trouxeram até aqui. A Vida é rizomática, uma infinidade de possíveis que se multiplicam a cada escolha. E são poucas as escolhas de fato que temos no sistema capitalista. Muitas das nossas ações são resultantes de capturas por este sistema das nossas forças criativas, direcionando-as para reproduções que vão automatizando a vida e nos dessensibilizando.


pés de criança vestindo uma sandalha colorida sobre um jardim florido

E como escapar disso? No macro é com luta coletiva e perene. No micro, é com implicação nos encontros que nos alimentam a energia de luta. É mapear as forças que nos capturam e produzir escapes singulares que abrem espaços para outros possíveis. É acreditar no novo como afirmação da diferença em nós. É fazer um Ano Novo todo dia para si e para suas relações. É investir na produção de alegria que não é alienante. É acreditar em outros possíveis pra desautomatizar nosso desejo. É escolher o amor ao destino como sustentação da implicação cotidiana. É começar agora o que inquietou o coração da criança de outrora mas que ainda existe em nós. É escolher estar junto das suas e dos seus para fazer o mundo que queremos aqui, não em Marte! Sabe? É ter os pés fincados no agora e os olhos vivos na busca por encontros que nos incitam a diferença


um céu estrelado com nuvens e a lua cheia

A terapia é um espaço possível para mobilizar em nós estas forças de implicação. É um lugar de encontro que visa a produção de multiplicidade. É onde você pode explorar as diferenças e os novos do aqui e do agora, sempre no campo do possível pra ti. Eu sei, parece repetitivo, mas a gente repete até fazer diferente, e pensar o possível é importante, porque é somente neste campo que podemos implicar nossas forças criativas para a construção da diferença, que é o que nos atualiza e nos possibilita viver alguma alegria no processo. E como eu já disse, fazer junto é mais gostoso. Vai dar trabalho e vai doer muito também, não é um mar de rosas, como grande parte da Vida que é real. Mas tende a ser um lugar que nos traz alguns céus estrelados entre tempestades.


duas mãos fazem um brinde com duas taças, confetes dourados caem ao fundo

Meu desejo de final de ano aqui é que encontres as forças necessárias para se implicar no cuidado de si que fizer sentido pra ti no próximo ano. E se em janeiro sua escolha for pela Saúde Mental, estou aqui para, numa parceria contigo, te acompanhar nesse processo com o intuito de fazer dele o mais fluido possível. Mas, se a escolha for por outro mês, eu continuarei aqui, na torcida e disponibilidade para construção conjunta dos possíveis que viabilizem algumas aberturas dos seus caminhos. A Vida pede passagem todo dia; o Novo é um convite do agora e o teu corpo e seus afetos são o terreno e os meios pelos quais podemos caminhar. O encontro terapêutico comigo é um caminho e um convite pra fazer com que esse processo traga mudanças não apenas pra si, mas para o mundo também. Bora juntas/es/os?




Micheli Aparecida de Paula

Psicóloga Clínica, Política e Social

CRP: 06/100735




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