Conflitos de casal não são só pessoais
- Micheli Aparecida de Paula

- 27 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 16 de jan.
como o contexto social e cultural atravessam nossas relações

Quando pensamos em conflitos de casal, é comum imaginar que eles são apenas resultado de problemas individuais: diferenças de personalidade, falhas de comunicação ou expectativas não atendidas. Mas a verdade é que nenhum relacionamento existe isolado. Nossas relações são atravessadas por normas sociais, pressões culturais e estruturas de poder que afetam a forma como amamos, cuidamos e até brigamos. Reconhecer isso é fundamental para transformar não apenas a relação, mas também a forma como nos posicionamos no mundo.
O peso das normas sociais nas relações
Vivemos em uma sociedade que, muitas vezes, dita como uma relação “deveria ser”: monogâmica, heterossexual, hierarquizada entre gêneros. Essas normas, quando aceitas sem reflexão, podem sufocar o desejo e criar conflitos que parecem pessoais, mas na verdade são coletivos. A terapia de casal abre espaço para questionar essas imposições e construir acordos mais livres e singulares.
O atravessamento das opressões

Conflitos de casal também são atravessados por questões de gênero, raça, classe, local e corporeidade. Mulheres ainda carregam, em muitas relações, o peso do cuidado doméstico e emocional. Pessoas LGBTQIAPN+ enfrentam violências e exclusões que fragilizam seus vínculos. O racismo, a gordofobia e a desigualdade social também se infiltram nas dinâmicas afetivas. A depender do local onde estamos, a cultura determinará os moldes validados e autorizados de se relacionar. Reconhecer esses atravessamentos não é trazer “politização excessiva” para a relação, mas sim dar nome ao que já está lá e produz sofrimento.
O que a terapia de casal pode oferecer
Na clínica, o casal ou parcerias afetivas encontram um espaço protegido para elaborar esses atravessamentos. Mais do que “quem está certo ou errado”, buscamos entender o que está em jogo na relação:
Quais expectativas são fruto do desejo genuíno e quais são impostas socialmente?
Que papéis estão sendo reproduzidos sem reflexão?
Que acordos precisam ser revisitados para garantir cuidado mútuo e responsabilidade afetiva?
Esse processo possibilita não só resolver conflitos, mas reinventar o modo de estar junto.
Conflito como oportunidade de criação

Na esquizoanálise, entendemos o conflito não como algo a ser simplesmente eliminado, mas como um momento de potência: ele revela fissuras por onde novas formas de vida podem surgir. Na terapia de casal, essas fissuras podem abrir caminhos para vínculos mais livres, conscientes e inventivos.
Conflitos de casal não são apenas questões privadas: eles carregam marcas de um mundo que nos atravessa o tempo todo. Olhar para isso com atenção, na terapia, é criar a chance de transformar não só a relação, mas também a forma como vivemos nossas escolhas e afetos. Se você e sua(s) parceria(s) desejam revisitar seus vínculos a partir de um espaço inclusivo, ético e acolhedor, estarei aqui para caminhar junto nesse processo.
Micheli Aparecida de Paula
Psicóloga Clínica, Política & Social
CRP: 06/100735


